A pior parte de matar uma pessoa impulsivamente é o trabalho que dá depois. No auge da ira (ou de qualquer outro sentimento provocador do delito) você nem percebe o que está fazendo e só toma consciência quando a pessoa fica gelada/pára de se mexer.
Sem ter um método, assim tudo bem pensado na cabeça antes, esconder/se livrar do corpo é uma mão-de-obra enorme. Ainda mais se tudo isso acontece na sua casa e se sua mãe está perto de chegar. Nem sendo canibal ia ter jeito, comer muito rápido é ruim pro estômago, indigestão é uma coisa muito ruim. As pessoas deveriam automaticamente desintegrar quando morressem. Piscar um pouquinho e depois sumir, como os inimigos dos jogos de videogame. E o corpo ali com a boca torta e você pensando, mas que droga, que invenção foi essa, agora vão me descobrir. Você se sente deveras vulnerável.
A primeira coisa que eu pensei quando acordei foi não matar pessoas. (Ou, se estritamente necessário, planejar direito e pelo menos fazer isso num lugar apropriado.)
E também não mais dormir com a luz ligada e ouvindo Tokyo Police Club nos headphones.
ouvindo: Firecracker, Voxtrot.
De inadequações arquitetônicas
Tenho tido problemas para dormir à noite e penso se isso não seria consequência, além do incômodo gípseo (sempre quis usar essa palavra), dessa posição terrível em que minha mãe colocou a cama, assim atravessada no meio do quarto. Porque cama boa é a) cama de solteiro pra dormir encostado na parede; b) cama de casal pra dormir espalhado. Aí você me pergunta, mas por que não coloca a cama na posição anterior, e eu lhe respondo, porque isso é meteorologicamente inviável. E isso exige umas explicações a nível de arquitetura.
Na época do projeto, minha mãe e a arquiteta resolveram que a melhor idéia para o meu quarto era um pergolado. (O Google só me retorna 12.300 resultados para essa palavra. Muito pouco. E eu não sei se existe outro nome para isso. Mas enfim.) Como se minha idéia de uma estante para livros ou de um móvel qualquer não fosse melhor. Como se meu quarto fosse o mais espaçoso do mundo para desperdiçar uns centímetros quadrados com um quadrado para entrar sol e colocar umas pedras e umas plantas. Como se eu fosse muito fã de tomar conta de plantas, regador todo dia e tal. E nem ao menos entra sol suficiente para um cacto, que é uma planta bacana e que não exige tanta água.
No início fui contra a idéia, mas como os argumentos giravam em torno da ventilação e iluminação do ambiente, cedi. O problema é que pergolados são nada mais que um buraco no teto. Ou seja, quando chove, cai água aqui dentro. E se a chuva for forte, a água tem um raio de atuação que extrapola o limite do pergolado. De acordo com resultados experimentais, a minha cama estava na posição mais bacana, nem atrapalhava a circulação nem nada. Até que veio essa temporada de chuvas durante a madrugada e estragou tudo, porque fica sempre chovendo em cima de mim. (E isso não é uma metáfora a la Travis.)
Então reflita. Eu não posso mais dormir como quero porque, levando em consideração a atual posição do guarda-roupa, não existe um lugar onde a cama fique enxuta durante a chuva E coladinha na parede ao mesmo tempo. Que fazer? Colocar uma dessas telhas transparentes de fibra de vidro resolveria o problema da água e eu continuaria com o sol. Mas aí acaba o vento. E vamos ser sinceros: nessa história de aquecimento global, ilhas de calor, baixas latitudes e clima equatorial, recusar vento é sinal de insanidade.
ouvindo: Going underground, I am the World Trade Center.
lendo: O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde.
Na época do projeto, minha mãe e a arquiteta resolveram que a melhor idéia para o meu quarto era um pergolado. (O Google só me retorna 12.300 resultados para essa palavra. Muito pouco. E eu não sei se existe outro nome para isso. Mas enfim.) Como se minha idéia de uma estante para livros ou de um móvel qualquer não fosse melhor. Como se meu quarto fosse o mais espaçoso do mundo para desperdiçar uns centímetros quadrados com um quadrado para entrar sol e colocar umas pedras e umas plantas. Como se eu fosse muito fã de tomar conta de plantas, regador todo dia e tal. E nem ao menos entra sol suficiente para um cacto, que é uma planta bacana e que não exige tanta água.
No início fui contra a idéia, mas como os argumentos giravam em torno da ventilação e iluminação do ambiente, cedi. O problema é que pergolados são nada mais que um buraco no teto. Ou seja, quando chove, cai água aqui dentro. E se a chuva for forte, a água tem um raio de atuação que extrapola o limite do pergolado. De acordo com resultados experimentais, a minha cama estava na posição mais bacana, nem atrapalhava a circulação nem nada. Até que veio essa temporada de chuvas durante a madrugada e estragou tudo, porque fica sempre chovendo em cima de mim. (E isso não é uma metáfora a la Travis.)
Então reflita. Eu não posso mais dormir como quero porque, levando em consideração a atual posição do guarda-roupa, não existe um lugar onde a cama fique enxuta durante a chuva E coladinha na parede ao mesmo tempo. Que fazer? Colocar uma dessas telhas transparentes de fibra de vidro resolveria o problema da água e eu continuaria com o sol. Mas aí acaba o vento. E vamos ser sinceros: nessa história de aquecimento global, ilhas de calor, baixas latitudes e clima equatorial, recusar vento é sinal de insanidade.
ouvindo: Going underground, I am the World Trade Center.
lendo: O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde.
Oceano particular
- I wonder 'bout the herds of the sea, if they will hurt or if they will help me.
Por que aqueles conselhos que caíam como tapas no rosto justamente em dias assim tão frágeis? Ela só queria entrar calmamente pela porta, ser recebida com um beijo na mão direita, sentar no sofá macio, conversar amenidades, contar sobre os dias ocupados, esconder todo o drama real e, depois, feito o que deveria fazer, caminho de casa, banho e jantar. Vivia de pura sublimação, não mencionando para tentar esquecer, forçando a formas menos agitadas os pensamentos ainda mais revoltos do que os cabelos, fugindo de uma desordem maior no sistema. Como se não fosse iminente a explosão.
- We can do some wrecking here.
E como ele saberia? Tudo o que ele via era uma moça já crescida lhe mostrando que os anos passavam depressa. Qual a última vez em que se viram? Alguns meses, mais de um ano, já? Já. Desde lá, mudara pouco. Aposentara os óculos e isso até o faria parecer mais novo, não fossem os cabelos brancos insistindo em aparecer. Ela, não; encorpara a olhos vistos e estava feminina como nunca. E se ele falava, era porque se importava. Parecia estranho que de uma relação comercial surgisse algo realmente sincero, mas não é sempre há muita lógica na maneira como as pessoas acabam por se aproximarem. E ela ria, mas somente porque não havia muito mais o que fazer na tentativa de disfarçar todo o desconcerto em que se encontrava, estando com os olhos abertos e sendo lida em segundos, enquanto o homem tão bonito tentava, com uma voz de chuva de fim de tarde, demovê-la de idéias que já não tinha tão firmes assim há uns dias. Talvez, desde a última vez que estivera ali. Ou talvez nunca as tivesse tido muito firmes, de qualquer forma.
- Don't lose yourself. Don't let yourself be lost.
Saiu da sala com um sorriso, mas andando em passos firmes e pequenos, como quem acabou de beber um pouco demais. Nunca antes quis tanto acreditar em alguma coisa, qualquer esperança que fosse. No carro, colocou o cinto e acelerou com vontade, verde, verde, sempre. Voltou para casa entoando junto com o rádio uns versos que chegaram tarde demais.
ouvindo: Ocean Night Song, Laura Veirs.
Por que aqueles conselhos que caíam como tapas no rosto justamente em dias assim tão frágeis? Ela só queria entrar calmamente pela porta, ser recebida com um beijo na mão direita, sentar no sofá macio, conversar amenidades, contar sobre os dias ocupados, esconder todo o drama real e, depois, feito o que deveria fazer, caminho de casa, banho e jantar. Vivia de pura sublimação, não mencionando para tentar esquecer, forçando a formas menos agitadas os pensamentos ainda mais revoltos do que os cabelos, fugindo de uma desordem maior no sistema. Como se não fosse iminente a explosão.
- We can do some wrecking here.
E como ele saberia? Tudo o que ele via era uma moça já crescida lhe mostrando que os anos passavam depressa. Qual a última vez em que se viram? Alguns meses, mais de um ano, já? Já. Desde lá, mudara pouco. Aposentara os óculos e isso até o faria parecer mais novo, não fossem os cabelos brancos insistindo em aparecer. Ela, não; encorpara a olhos vistos e estava feminina como nunca. E se ele falava, era porque se importava. Parecia estranho que de uma relação comercial surgisse algo realmente sincero, mas não é sempre há muita lógica na maneira como as pessoas acabam por se aproximarem. E ela ria, mas somente porque não havia muito mais o que fazer na tentativa de disfarçar todo o desconcerto em que se encontrava, estando com os olhos abertos e sendo lida em segundos, enquanto o homem tão bonito tentava, com uma voz de chuva de fim de tarde, demovê-la de idéias que já não tinha tão firmes assim há uns dias. Talvez, desde a última vez que estivera ali. Ou talvez nunca as tivesse tido muito firmes, de qualquer forma.
- Don't lose yourself. Don't let yourself be lost.
Saiu da sala com um sorriso, mas andando em passos firmes e pequenos, como quem acabou de beber um pouco demais. Nunca antes quis tanto acreditar em alguma coisa, qualquer esperança que fosse. No carro, colocou o cinto e acelerou com vontade, verde, verde, sempre. Voltou para casa entoando junto com o rádio uns versos que chegaram tarde demais.
ouvindo: Ocean Night Song, Laura Veirs.
Da degeneração cerebral
Caracas usará zepelins para policiar as ruas
Todo o lance 1984 da coisa, câmeras por todo o lado, "Nós estamos vigiando você para a sua segurança", e a única coisa que eu pensei foi naqueles flagrantes do Google Earth e que agora sim ninguém mais vai poder tomar sol sem roupa na laje.
ouvindo: Paper kitten nightmare, Margot & The Nuclear So and So's.
Todo o lance 1984 da coisa, câmeras por todo o lado, "Nós estamos vigiando você para a sua segurança", e a única coisa que eu pensei foi naqueles flagrantes do Google Earth e que agora sim ninguém mais vai poder tomar sol sem roupa na laje.
ouvindo: Paper kitten nightmare, Margot & The Nuclear So and So's.
Das demonstrações públicas de afeto
O professor de História falava sobre Romeu & Julieta quando alguém bateu à porta. Era um funcionário da escola acompanhado por um entregador de flores. Chamaram pelo nome de uma das meninas da sala, trocando somente a última vogal. Não era dia do aniversário nem nada, ela achou que estava errado. Depois disseram um segundo nome, bem incomum e que até agora ainda não entendi, e ela nem teve como negar. Veio andando, toda desconcertada, passou do meu lado com meias e chinelos e foi buscar o buquê.
(Parêntese: Certo que em alguns pontos da sala realmente faz frio e que hoje estivesse chovendo, mas acho que nada justifica usar meias brancas com Havaianas em público aqui no Brasil, a menos que você esteja fantasiado de japonês.)
Então. Então que no fim das contas, todo mundo fazendo alarde pra saber quem tinha mandando e por que, alguém abriu o cartão e descobriu-se ser presente de um menino da sala. E eles nem são namorados nem ficantes nem nada. Tão engraçado ver os dois cada um mais envergonhado que o outro. E eu acho que nunca tinha visto uma dessas cantadas românticas a la século XIX tão de perto.
Não vou ser mentirosa e dizer que não gosto de rosas ou de outras flores mais. Ainda que eu ande toda amarga pelo mundo, ainda que fora dos ramos elas sejam (convenhamos) uns cadáveres, certamente não recusaria recebê-las. Foi tão bonito aquele dia em que ela me deu uma rosa vermelha bem grande - eu até escrevi um poema depois. Mas tudo o que uma pessoa precisaria para acabar com toda e qualquer chance de um envolvimento amoroso comigo seria me fazer passar vergonha na frente de todo mundo. Receber umas flores no conforto do lar é uma coisa; recebê-las no meio da aula, colocar faixa na frente da casa, carro de som com mensagens: isso me faria sentir tanta vergonha que a pessoa poderia esquecer qualquer saudação ou bom dia durante uns três anos, no mínimo.
ouvindo: Shankill Butchers, The Decemberists.
(Parêntese: Certo que em alguns pontos da sala realmente faz frio e que hoje estivesse chovendo, mas acho que nada justifica usar meias brancas com Havaianas em público aqui no Brasil, a menos que você esteja fantasiado de japonês.)
Então. Então que no fim das contas, todo mundo fazendo alarde pra saber quem tinha mandando e por que, alguém abriu o cartão e descobriu-se ser presente de um menino da sala. E eles nem são namorados nem ficantes nem nada. Tão engraçado ver os dois cada um mais envergonhado que o outro. E eu acho que nunca tinha visto uma dessas cantadas românticas a la século XIX tão de perto.
Não vou ser mentirosa e dizer que não gosto de rosas ou de outras flores mais. Ainda que eu ande toda amarga pelo mundo, ainda que fora dos ramos elas sejam (convenhamos) uns cadáveres, certamente não recusaria recebê-las. Foi tão bonito aquele dia em que ela me deu uma rosa vermelha bem grande - eu até escrevi um poema depois. Mas tudo o que uma pessoa precisaria para acabar com toda e qualquer chance de um envolvimento amoroso comigo seria me fazer passar vergonha na frente de todo mundo. Receber umas flores no conforto do lar é uma coisa; recebê-las no meio da aula, colocar faixa na frente da casa, carro de som com mensagens: isso me faria sentir tanta vergonha que a pessoa poderia esquecer qualquer saudação ou bom dia durante uns três anos, no mínimo.
ouvindo: Shankill Butchers, The Decemberists.
Da vontade de sair correndo pela rua
Mas que puxa..!
Essa história de crescer e "virar gente" tem me dado muito trabalho esses dias.
ouvindo: Summertime, Scarlett Johansson.
Essa história de crescer e "virar gente" tem me dado muito trabalho esses dias.
ouvindo: Summertime, Scarlett Johansson.
Do e-mail coletivo
nunca tive medo do escuro, de sapo ou de barata. o que me assustava era a imensidão das coisas e a minha pequenez diante delas; daí eu ter medo de sair à noite no quintal, aquele céu enorme e todos os extraterrestres que poderiam aparecer para me levar, hahaha.
o tempo passou e continuo a menina com medo da imensidão das coisas. e meu maior problema é ter - em algum ponto indefinido - deixado de enxergar as possibilidades com otimismo. o medo do fracasso me paralisa, como nenhuma outra coisa faz. debruçar-se em varandas de prédios, ficar presa em elevadores, ficar doente, terremoto, coração partido ou ficar grávida (hein, ju): nada me assusta mais do que fracassar terrivelmente, fazer escolhas erradas e não conseguir consertar.
mas acho que no fundo, a questão é o comodismo: falta iniciativa, foco e método. saber tomar decisões também era uma coisa que gostaria de fazer. e evitar que os fatores externos influenciassem tanto nas decisões já tomadas. acho que o primeiro passo talvez seja começar a fazer as tais listas de coisas - e realmente cumpri-las. organizar horários e ser mais disciplinada, certamente.
acho que os tapas que já levei na cara ainda não foram suficientes pra me fazer despertar por completo: ainda estou semi-sonâmbula pela vida afora. a desculpa da vez é o gesso, mas como juliana disse, já tenho algumas tarefas a serem cumpridas antes de tirá-lo. se orienta, menina; ju falou. e "orientar-me-ei" é a palavra do resto de abril. buscar deixar de fracassar em tudo simplesmente por não tentar, como a letícia falou.
e lá vamos nós.
ouvindo: Construção, Mônica Salmaso.
o tempo passou e continuo a menina com medo da imensidão das coisas. e meu maior problema é ter - em algum ponto indefinido - deixado de enxergar as possibilidades com otimismo. o medo do fracasso me paralisa, como nenhuma outra coisa faz. debruçar-se em varandas de prédios, ficar presa em elevadores, ficar doente, terremoto, coração partido ou ficar grávida (hein, ju): nada me assusta mais do que fracassar terrivelmente, fazer escolhas erradas e não conseguir consertar.
mas acho que no fundo, a questão é o comodismo: falta iniciativa, foco e método. saber tomar decisões também era uma coisa que gostaria de fazer. e evitar que os fatores externos influenciassem tanto nas decisões já tomadas. acho que o primeiro passo talvez seja começar a fazer as tais listas de coisas - e realmente cumpri-las. organizar horários e ser mais disciplinada, certamente.
acho que os tapas que já levei na cara ainda não foram suficientes pra me fazer despertar por completo: ainda estou semi-sonâmbula pela vida afora. a desculpa da vez é o gesso, mas como juliana disse, já tenho algumas tarefas a serem cumpridas antes de tirá-lo. se orienta, menina; ju falou. e "orientar-me-ei" é a palavra do resto de abril. buscar deixar de fracassar em tudo simplesmente por não tentar, como a letícia falou.
e lá vamos nós.
ouvindo: Construção, Mônica Salmaso.
Da manipulação da mídia
Dia comum de aulas. Toda aquela natural aversão à trigonometria, apesar das extremas organização e paciência do professor. O domínio da função cotangente, pessoal, é quanto? Gente conversando, acho que tinha até quem brincasse de adedonha com stop. Ana, você sabe um time com L?
De repente, entra uma moça magrinha com uma câmera fotográfica enorme, uma lente de zoom do tamanho do meu pé e começa a tirar fotos da turma. O coordenador avisa que vai sair no site da escola. A fotógrafa pede pra gente esquecer que ela está ali, olhar pro quadro. Na busca por vários ângulos, chega perto de onde eu estou. Olha, façam cara de quem está estudando. O que se vê é mão no queixo e risada querendo sair. Mas não apontou a bazuca pra mim, graças. Na (pen)última das fotos coletivas, alguém sugeriu, Ei, vamos levantar os braços quando ela for tirar a foto. A intenção era desordem. Que houve? A moça gostou da idéia. Vai, todo mundo com a mão pra cima agora. E se fez aquele auê.
Dois dias depois, alguém chega com a notícia de que tem uma foto no mural perto da coordenação. Na hora da saída, fui olhar. A classe inteira com mãos pra cima e a legenda: "Alunos de cursinho pré-vestibular comemoram a decisão do MPF." Era um artigo de um jornal local, falando sobre uma decisão do Ministério Público que diz respeito à revisão das provas de processos seletivos, pedidos de recorreção. E lá estampada a cara dos meus colegas de classe, inocentes e alheios, sorrindo. Eu pequenininha lá no fundo, amém.
Aí ainda querem que eu acredite na idoneidade da Rede Globo.
ouvindo: música, Le Tigre.
lendo: Ensaio sobre a cegueira, Saramago. (ainda)
De repente, entra uma moça magrinha com uma câmera fotográfica enorme, uma lente de zoom do tamanho do meu pé e começa a tirar fotos da turma. O coordenador avisa que vai sair no site da escola. A fotógrafa pede pra gente esquecer que ela está ali, olhar pro quadro. Na busca por vários ângulos, chega perto de onde eu estou. Olha, façam cara de quem está estudando. O que se vê é mão no queixo e risada querendo sair. Mas não apontou a bazuca pra mim, graças. Na (pen)última das fotos coletivas, alguém sugeriu, Ei, vamos levantar os braços quando ela for tirar a foto. A intenção era desordem. Que houve? A moça gostou da idéia. Vai, todo mundo com a mão pra cima agora. E se fez aquele auê.
Dois dias depois, alguém chega com a notícia de que tem uma foto no mural perto da coordenação. Na hora da saída, fui olhar. A classe inteira com mãos pra cima e a legenda: "Alunos de cursinho pré-vestibular comemoram a decisão do MPF." Era um artigo de um jornal local, falando sobre uma decisão do Ministério Público que diz respeito à revisão das provas de processos seletivos, pedidos de recorreção. E lá estampada a cara dos meus colegas de classe, inocentes e alheios, sorrindo. Eu pequenininha lá no fundo, amém.
Aí ainda querem que eu acredite na idoneidade da Rede Globo.
ouvindo: música, Le Tigre.
lendo: Ensaio sobre a cegueira, Saramago. (ainda)
Do pessimismo
Meu professor de História Geral diz que adolescência é um fenômeno de classe média e que muitas das crianças que trabalham desde os seis anos vendendo dindin na praia para ajudar em casa porque o pai é alcoólatra são mais maduras do que eu. Não sei se discordo. Toda essa angústia sem motivo, de onde vem? Por que sempre tão pequena? Misturo tédio e existencialismo, evito pensar para não me tornar socialmente perigosa e continuo com medo de ler Nietzsche e Sartre.
Minha mãe fala sobre não queimar etapas, ter paciência, pensar bem. Fala que eu deveria ser mais grata a Deus por tudo. Ok, mas não é tão fácil. Que eu sou bonita e inteligente. Haha, sempre achei que o amor deixa as pessoas cegas. Ninguém vê que meu cérebro é o mesmo de anos atrás, que eu falo e faço as mesmas besteiras de quando tinha 16 anos e que no fundo eu sempre achei essa história de "não era seu tempo" como um eufemismo barato demais para falar em fracasso.
Nunca como hoje acordei com tanta vontade de voltar no tempo e ter tido sonhos e prioridades diferentes. E uma vontade de jogar num desses minigames antigos que funcionavam com quatro pilhas e que a gente emendava com fita isolante quando partia ao meio depois de uma queda. Jogar Tetris e ouvir uma playlist suicide-like durante uma viagem de ônibus, avião ou navio, que durasse três, quatro dias, me deixasse mentalmente anestesiada e me levasse para qualquer lugar longe e diferente.
E aí fico aqui, num desânimo gigante, tendo uma inveja doída de quem faz o que eu gostaria de fazer, sendo dona de uma falta de concentração sem precedentes na minha vida, abandonando pela metade a 4ª narrativa que iniciei num arquivo de texto, fingindo que estudo e tenho alguma esperança. Pra no fundo ter certeza de que talvez eu vá acabar fazendo algo que não goste durante 8h do dia, apenas para ter dinheiro para umas ameixas e uns livros no início de cada mês.
Do yourself a favour and pack you bags
Buy a ticket and get on the train
- Cause this is fucked up, fucked up
É.
ouvindo: Black swan, Thom Yorke.
Minha mãe fala sobre não queimar etapas, ter paciência, pensar bem. Fala que eu deveria ser mais grata a Deus por tudo. Ok, mas não é tão fácil. Que eu sou bonita e inteligente. Haha, sempre achei que o amor deixa as pessoas cegas. Ninguém vê que meu cérebro é o mesmo de anos atrás, que eu falo e faço as mesmas besteiras de quando tinha 16 anos e que no fundo eu sempre achei essa história de "não era seu tempo" como um eufemismo barato demais para falar em fracasso.
Nunca como hoje acordei com tanta vontade de voltar no tempo e ter tido sonhos e prioridades diferentes. E uma vontade de jogar num desses minigames antigos que funcionavam com quatro pilhas e que a gente emendava com fita isolante quando partia ao meio depois de uma queda. Jogar Tetris e ouvir uma playlist suicide-like durante uma viagem de ônibus, avião ou navio, que durasse três, quatro dias, me deixasse mentalmente anestesiada e me levasse para qualquer lugar longe e diferente.
E aí fico aqui, num desânimo gigante, tendo uma inveja doída de quem faz o que eu gostaria de fazer, sendo dona de uma falta de concentração sem precedentes na minha vida, abandonando pela metade a 4ª narrativa que iniciei num arquivo de texto, fingindo que estudo e tenho alguma esperança. Pra no fundo ter certeza de que talvez eu vá acabar fazendo algo que não goste durante 8h do dia, apenas para ter dinheiro para umas ameixas e uns livros no início de cada mês.
Do yourself a favour and pack you bags
Buy a ticket and get on the train
- Cause this is fucked up, fucked up
É.
ouvindo: Black swan, Thom Yorke.
Da estagnação
O legal de ter alguma coisa atrapalhando sua vida é: você tem a sensação de que sua vida só não vai para frente por causa daquilo, de que tudo serão flores quando isso sumir. E convenhamos que ter algo concreto (ou não) onde jogar suas frustrações cotidianas e para justificar o nada-fazer é uma boa, mesmo que os raciocínios sejam falaciosos. (Quem se importa.)
Faço planos. Correr na praia com pés descalços, ir ao cinema com jujubas, finalmente entrar na auto-escola, comprar uma calça jeans nova, voltar a fazer exercícios, quem sabe yoga?, fazer as unhas dos pés e ganhar uma massagem, viajar, me perder por aí.
É exatamente assim como se tirar essa bota de gesso fosse a trazer a paz mundial, percebe?
Ou pelo menos o álbum novo do Radiohead.
ouvindo: Devils hootenanny, Laura Veirs.
Faço planos. Correr na praia com pés descalços, ir ao cinema com jujubas, finalmente entrar na auto-escola, comprar uma calça jeans nova, voltar a fazer exercícios, quem sabe yoga?, fazer as unhas dos pés e ganhar uma massagem, viajar, me perder por aí.
É exatamente assim como se tirar essa bota de gesso fosse a trazer a paz mundial, percebe?
Ou pelo menos o álbum novo do Radiohead.
ouvindo: Devils hootenanny, Laura Veirs.
Do feriado inútil
Mas é só que eu queria entender que atmosfera é essa, inerente a domingos e feriados prolongados, que faz com que eu perca meus dias livres em casa tendo enxaquecas e morrendo de calor.
ouvindo: So sorry, Feist.
ouvindo: So sorry, Feist.
Dos convites improváveis
eu entenderia:
teu sorriso de plano aberto,
teu preocupar-se constante,
teu caminhar de botas porta afora,
teus assobios em noites quentes de abril.
e haveria, em contínuo,
meus desvairios de meia légua,
meu sumiço presente e meu descaso atencioso,
minha dor de veia aberta a faca.
contanto que
apenas:
meias furadas, chaleira pro café,
cds arranhados, hidratante de morango,
revistas recortadas, enxugar pratos de louça,
quinta-feira madrugada, maracujá pra dormir,
perfume costurado à minha blusa de algodão.
e eu correria sobre estacas,
acenderia fogueiras sob a chuva,
pintaria até os olhos,
rouge-rouge nas maçãs e pó de arroz à grega.
pularia sem medo
a ver e a sentir
minhas pétalas caindo
uma a uma a uma a uma.
(e teus passos de inseto inquieto,
dedos suaves de ligeireza e ânsia.)
giros de perna
piruetas e estalos de ossos:
eu me desdobraria em origamis
- lírios em papel seda cor de azul -
por um sorriso de lençóis amassados.
no promisses, no demands.
just don't leave~
ouvindo: Hints, José González.
teu sorriso de plano aberto,
teu preocupar-se constante,
teu caminhar de botas porta afora,
teus assobios em noites quentes de abril.
e haveria, em contínuo,
meus desvairios de meia légua,
meu sumiço presente e meu descaso atencioso,
minha dor de veia aberta a faca.
contanto que
apenas:
meias furadas, chaleira pro café,
cds arranhados, hidratante de morango,
revistas recortadas, enxugar pratos de louça,
quinta-feira madrugada, maracujá pra dormir,
perfume costurado à minha blusa de algodão.
e eu correria sobre estacas,
acenderia fogueiras sob a chuva,
pintaria até os olhos,
rouge-rouge nas maçãs e pó de arroz à grega.
pularia sem medo
a ver e a sentir
minhas pétalas caindo
uma a uma a uma a uma.
(e teus passos de inseto inquieto,
dedos suaves de ligeireza e ânsia.)
giros de perna
piruetas e estalos de ossos:
eu me desdobraria em origamis
- lírios em papel seda cor de azul -
por um sorriso de lençóis amassados.
no promisses, no demands.
just don't leave~
ouvindo: Hints, José González.
Da vida de (pseudo-)estudante
O cursinho vai bem, obrigada. É basicamente a ele que se resume minha vida nos últimos dias (e assim será até novembro), então gostar fica sendo mais do que uma questão de preferências, vontades satisfeitas ou necessidade. Aproveitar a oportunidade e tentar ter ânimo todo dia quando o despertador toca às seis. Mesmo que você tenha ido dormir às quatro e meia.
Eu até falo com pessoas, veja você. Permanece aquela velha história: se ninguém vem falar comigo, também não corro atrás; mas às vezes surgem ocasiões, como o dia em que fui ao shopping e quebrei o pé. Então as coisas vão fluindo. Sem falar na quantidade de horas de convivência. E convenhamos que tendo aula todos os sábados e até em um eventual domingo, elas acabam sendo bastantes. Diferente dos cursos de idiomas, onde eu nunca conseguia socializar com mais do que três colegas, os quais seriam, pelo resto do semestre, minhas opções de duplas em todas as constrangedoras atividades com diálogos e produção de textos bobos.
(Exceção: a turma de inglês bacana que fazia festas por tudo e que teve o professor dos desfiles que depilava os braços e aquele outro que nos apresentou a Belle and Sebastian).
Com o pé quebrado, nem corro o risco de pegar ônibus lotado ou tomar sol no trajeto parada de ônibus-quarta rua à direita. E tem o portão lateral que abrem só pra mim, porque é mais perto das rampas. Durmo um pedaço da tarde e depois, às vezes, aulas de aprofundamento; às vezes, não. Estudar à noite e sempre menos do que deveria: é assustador ouvir pessoas dizendo que estudam 5h, enquanto eu mal me concentro mais de 1h na mesma matéria.
Finjo que sou inteligente e organizada, não tenho visto filmes, leio um pouco, ouço música mais dormindo que acordada, tento fazer de conta que nunca tenho dúvidas se (mesmo depois de tanto tempo pensando) realmente quero fazer Medicina, com todas as coisas implícitas a isso. Queria voltar no tempo, ter uma máquina de teletransporte, adivinhar o futuro e ter auto-estima; essas coisas fisicamente impossíveis.
Em resumo, para quem tem preguiça de ler:
Tudo diferente e tudo bem igual.
ouvindo: Rugla, amiina.
Eu até falo com pessoas, veja você. Permanece aquela velha história: se ninguém vem falar comigo, também não corro atrás; mas às vezes surgem ocasiões, como o dia em que fui ao shopping e quebrei o pé. Então as coisas vão fluindo. Sem falar na quantidade de horas de convivência. E convenhamos que tendo aula todos os sábados e até em um eventual domingo, elas acabam sendo bastantes. Diferente dos cursos de idiomas, onde eu nunca conseguia socializar com mais do que três colegas, os quais seriam, pelo resto do semestre, minhas opções de duplas em todas as constrangedoras atividades com diálogos e produção de textos bobos.
(Exceção: a turma de inglês bacana que fazia festas por tudo e que teve o professor dos desfiles que depilava os braços e aquele outro que nos apresentou a Belle and Sebastian).
Com o pé quebrado, nem corro o risco de pegar ônibus lotado ou tomar sol no trajeto parada de ônibus-quarta rua à direita. E tem o portão lateral que abrem só pra mim, porque é mais perto das rampas. Durmo um pedaço da tarde e depois, às vezes, aulas de aprofundamento; às vezes, não. Estudar à noite e sempre menos do que deveria: é assustador ouvir pessoas dizendo que estudam 5h, enquanto eu mal me concentro mais de 1h na mesma matéria.
Finjo que sou inteligente e organizada, não tenho visto filmes, leio um pouco, ouço música mais dormindo que acordada, tento fazer de conta que nunca tenho dúvidas se (mesmo depois de tanto tempo pensando) realmente quero fazer Medicina, com todas as coisas implícitas a isso. Queria voltar no tempo, ter uma máquina de teletransporte, adivinhar o futuro e ter auto-estima; essas coisas fisicamente impossíveis.
Em resumo, para quem tem preguiça de ler:
Tudo diferente e tudo bem igual.
ouvindo: Rugla, amiina.
Do convite que meu irmão recebeu
De: Rodriguinho
Para: Jimy
Meu aniversário é no dia 2, mas vou comemorar no GameStation do Midway Mall, às 18h, dia 1.
E não é mentira!
ouvindo: Long haired child, Devendra Banhart.
lendo: Ensaio sobre a cegueira, José Saramago.
Para: Jimy
Meu aniversário é no dia 2, mas vou comemorar no GameStation do Midway Mall, às 18h, dia 1.
E não é mentira!
ouvindo: Long haired child, Devendra Banhart.
lendo: Ensaio sobre a cegueira, José Saramago.
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