Do dia em que eu fui ser acompanhante da minha mãe no hospital

Não quero ser enfermeira.

ouvindo: Don't see the sorrow, Au Revoir Simone.
lendo: Memórias de sargento de milícias, Manoel Antônio de Almeida.

Do simulado de meio de ano

Hoje foi um dia de cão. Manhã e tarde, centro-e-quatro questões objetivas, incluindo coisas que não vi no cursinho ainda nem tive a decência de rever em casa, quem se importa com basidiomicetos?, além de uma redação do inferno onde eu deveria, de alguma forma coerente, relacionar em até 30 linhas: terrorismo, falta de água potável, violência, progresso X natureza. alguma coisa a ver com a Terra se vingando. Até entendo que exijam de vestibulandos um poder dissertativo bem desenvolvido, mas existem limites, não? Ou deveria existir, depois de uma provinha de História daquela. Eu e minhas rosquinhas de coco ficamos por lá até quase o minuto final e juro que nessa hora o meu cérebro já vinha escorrendo pelo nariz, mas eu funguei de volta bem a tempo.

Bem merecido, na verdade. Essa maratona foi culpa da minha esperteza preguiça de ontem, insistindo em dormir mais cinco minutinhos ao confiar na pontualidade das linhas de ônibus. Ter confiança demais é bem triste, para ser decepcionado basta um tantinho assim. Ou seja. Acabei chegando atrasada e sendo impedida de fazer as provas de ontem, para só as repôr hoje de manhã. E o legal foi sair correndo bem cedo, sem nem tomar café da manhã, para não se atrasar de novo e depois, já no ônibus, lembrar que a reposição só começaria no 2º horário e que, dessa vez sim, cinco minutinhos a mais seriam possíveis. Sem falar que amanhã é o grande dia de se sentir incapaz: provas discursivas de química, física e biologia. Hey!

Aicomoeuodeiosimulados.

ouvindo: As long as the sun shines, Their hearts were full of spring.
lendo: O perfume, Patrick Süskind.

Da nova idade

Passar um sábado cheio de possibilidades em casa por estar muito rouca e com a garganta doendo e com um nariz de chafariz não era o que eu tinha em mente uns dias atrás. Tudo bem. Foi bacana para pensar : um clima de ano começando, sabe? E não deixa de ser.

Esquecendo essa agonia no peito, a de angústia e a de tanta tosse, infiltro na cabeça um pensamento de vida mais laranja : ânimo e vontade. Não quero mais me permitir continuar tão imóvel e conformada, suprimindo questionamentos para me fingir completa. E, principalmente, quero que isso seja uma coisa de todo e cada dia, não apenas pontual em dias específicos e fugazes.

Crescer dói um pouco, não é como se fosse apenas ganhar coisas boas o tempo inteiro. Pelo contrário, e meu rosto sabe quantos tapas já levou. Tento então aproveitar o momento e pensar, agora já sem tanto deslumbramento, nas oportunidades que ainda hão de chegar : para essas, olhos abertos, vontade de se jogar e alguma força. Porque o zunido agudo no ouvido, quando tudo faz silêncio, me conta histórias incríveis, só preciso acreditar nelas.

Além de uns poucos momentos de insegurança pública a que me permito, estou dona de mim como nunca. Faço sentido sozinha e isso ninguém me tira. Só não tente compreender, tudo isso é humano / contraditório / complicado / bonito demais. Nem eu sei até que ponto me disponho e me retraio, me engano, estou certa e argumento, deixo ir, reivindico e fujo, tangente : isso já é tão intrínseco, essa confusão e esse desatino, essa mistura de cores e sentimentos.

Acho que tenho cara de caleidoscópio.

ouvindo: Hanasakajijii Four: A Great Wind, More Ash, Anathallo.
lendo: O quieto animal da esquina, João Gilberto Noll.

Agridoce

- The more you know who you are, and what you want, the less you let... things upset you.

Passei a tarde de sol dormindo e agora tenho uma madrugada inteira em claro pela frente. Lá fora chove, e tanto, num céu cor de rosa que não demonstra trégua tão cedo. Não faço objeções: gosto desse cheiro de água lavando os telhados. E eu queria te contar como, contrariando o senso comum, os trovões me tranquilizam tanto. Esse barulho que vem repentino e cresce nos ouvidos, estremecendo por dentro, e o som de chuva tamborilando no chão de areia, no teto, nas folhas das plantas: sentimento de afago, um abraço de vento frio entrando furtivamente pela janela sempre aberta. Me consola pensar que esse abraço seria seu, se você estivesse por aqui.

Descrevendo o ambiente, eu diria: do meu lado, uma garrafinha de iogurte de coco já perto de perder a validade, na frente, um livro aberto esperando minha atenção, no chão, alguns livros empilhados e uns tênis sujos. E eu - cabelos lavados, camiseta grande, olhos lentos -, como poucas vezes nos últimos dias de existência cinza e confusa e inerte, me sinto em paz. Apesar de todas os atos mal-pensados, dos planos engavetados, da lenta desconstrução da mentalidade - que me deixa então sem saber para onde correr -, de não conseguir ser quem gostariam que eu fosse. Então fico passando os olhos por textos que ao mesmo tempo encantam e embrulham o estômago por me desnudarem em poucas palavras, fico cantarolando junto com os vários meninos de voz bonita que cabem numa pasta do meu computador e que falam coisas que nem cabem no meu peito apertado e tão árido, conformado e nem por isso menos dolorido, mas sobretudo sereno.

Coleciono contradições e tenho uma leve vontade de ter sido menos sensata e controlada, mais impulsiva às vezes, esse sangue ardendo sob a pele, mas só eu sei o quanto e por quanto tempo as coisas repercutem e reverberam na minha cabeça; seria necessário muito trabalho psicológico aqui e o passado não volta, de qualquer forma. Aquiesço e durmo olhando esse céu imenso, esses pontos infinitos, tanto de incertezas quanto de possibilidades, abraçada fortemente à joaninha de pelúcia.

Respiro em suspiros, sentindo o coração batendo e a cabeça latejando e as pernas levemente dormentes, numa harmonia particular e sublime.
Me sinto viva, hoje.

ouvindo: Together & Down, Benoît Pioulard.
lendo: O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald.

Vinte e cinco minutos

Eu vou ficar sentado à mesa, eu e minha camisa de mangas compridas, e meus sapatos engraxados por crianças anêmicas na manhã de ontem, e meu gel no cabelo repartido, eu e a gravata folgada ao fim do dia, e a terceira dose de uísque, e você que não chega, nunca foi mesmo pontual, mas eu espero. Envoltos numa melodia indefinida e num murmúrio suave, num cheiro agressivo de comida alheia e álcool próximo, esperamos, eu e o desejo surdo que me acompanha. Em situações assim, o tempo passa mais devagar. Compensava, porém, pensar no momento em que você entraria sem susto e deixaria sobre a cadeira sobressalente a bolsa de couro e o casaco e o pudor usado para se aquecer em dias de feriado aberto. Melhor assim, Teresa. Melhor assim. E quando então você finalmente estivesse sentada à minha frente - essa cena se repetindo sob minhas pálpebras retesadas - com o sapato de bico fino e salto mais fino ainda pendendo do pé da perna cruzada por cima da outra e com um vestido leve e fácil e com um batom nos lábios de borboleta desvairada, engraçado como em meu cardápio só haveria seu nome escrito.

ouvindo: L'ultima notte, Josh Groban.

Do bater de botas

É inevitável.
Sempre que assisto algum filme e um personagem de destaque morre, fico até o final esperando que tudo não tenha passado de um engano.

ouvindo: The magic position, Patrick Wolf.

Do desânimo

Passei a tarde inteira dormindo. Agora já são quase 3h e eu preciso dormir porque fico em pé até 20h com intervalo só pro almoço, mas não consigo. Cansei da termologia e das notícias sobre G8, etanol e bases antimísseis no Leste Europeu. Meu computador desliga quando quer, só liga quando quer, e meu ventilador caiu no chão e quebrou o pescoço. Estou ouvindo música há tanto tempo que os fones fazem minhas orelhas doerem e eles também apertam as pernas dos óculos, que apertam um ossinho e isso vai provocando uma dor de cabeça suave para acompanhar a falta de sono.

Eu gostaria de ser uma pessoa forte. E corajosa. Me sinto mal com as expectativas e as cobranças indiretas, como se já não bastassem as minhas próprias críticas. Dia desses não aguentei e saí no meio da aula para vomitar. Disse que alguma coisa me tinha feito mal, quando na verdade era puro nervosismo. É difícil não conseguir ser a pessoa que você pensava poder ser.

Às vezes tento me consolar pensando na aprendizagem, mas nem sempre tenho certeza de que eu esteja virando uma pessoa melhor. E o que realmente significa ser uma pessoa melhor, no fim das contas?

Acho que não pertenço a lugar ou coisa alguma.

ouvindo: Blue suede shoes, Chris Garneau.

Dos posts grandes demais

Aí eu andei reparando no quanto eu falo (e não é pouco) e no quanto isso deve ser um saco de ler. Mas é uma compensação. Ao vivo eu geralmente fico calada e não sei puxar assunto nem manter num nível bacana os assuntos puxados por outros, além de não ter paciência para conversinhas bestas de fofoca o tempo todo.

Num mundo perfeito, eu seria tão eloqüente em voz quanto em palavras escritas.

ouvindo: Set yourself on fire, Stars.

Das propostas inviáveis

Eu sempre gostei de observar as pessoas e desenvolver teorias sobre coisas diversas, mesmo que não tenha a mínima competência para fazê-lo. (Menos filmes. Não sei inventar teorias para eles.)

Quando pequena, e isso não deve ser muito saudável na cabeça de uma criança de sete anos, eu acreditava que as pessoas, salvo raras fugas à regra, namoravam por convenção cultural, pelo simples fato de que a probabilidade de ter o amor retribuído por alguém era realmente muito mínima e precisavam arranjar uma saída. Era como um acordo, onde um vinha com o amor já pronto e valendo por dois e o outro com outra vantagem à escolha (e nem precisava ser vantagem, podia ser só o medo de ficar só). Então as pessoas acabavam se entendendo, desenvolviam uma amizade bacana com adendos especiais, aprendiam a ter algum respeito e amor mútuo e se casavam para tornar a vida menos solitária, já que não podiam mais brincar na rua e ter coleguinhas de colégio. (E claro que na época as palavras e as idéias não se articulavam assim, mas em linhas gerais era isso.)

Depois vieram Hollywood e os livros do Romantismo e eu comecei a achar que talvez não fosse bem assim e que as tais exceções fossem na verdade a regra. Algum fundo de verdade tinha que haver ali, naquela água com açúcar de final de novela, naqueles sentimentos grandiosos e descontrolados, até. Não é possível que fossem deixar todo mundo mentir desse jeito e não fazer nada. (Hoje em dia não tenho muita certeza a respeito de uma coisa ser verdade apenas por ser dita por muita gente. Manipulação das massas e o escambau.)

Depois-depois eu cresci e começou o natural leva-e traz de atrações não-correspondidas, tanto de minha parte quanto da parte alheia, com algumas poucas situações diferentes, sendo estas também cheias de outras complicações que não vêm ao caso. Foi nessa época que descobri o cinema mais amargo e literaturas nem tão felizes assim. Passei a acreditar no meio termo e é assim que eu levo meus dias, balanceando coisas que tenho vontade de fazer com as coisas que eu preciso fazer, nunca me prendendo por muito tempo a um só dos extremos.

Aí vem você, inesperadamente, com uma conversa mole e um tanto etílica, dessas que eu escuto por não saber me desvencilhar da situação, tentando me convencer de que (mais do que apenas na Física) os opostos se atraem e que eu deveria ao menos tentar: você me provaria que estava certo nas suas expectativas criadas sem que eu nem sonhasse. Parecia tanto com as minhas teorias de infância que eu quis rir, mas não saberia explicar, então aguentei. Era como insistir para que algo já começasse sem dar certo, me pedir para me esforçar por uma coisa que não sinto necessidade; por que tentar, então? Não é preciso. Mas você não via nada disso e eu acho mesmo é que as pessoas gostam de cegueira seletiva.

Ora, francamente.
Sou uma velha ranzinza que gosta de chá e cria gatos.
Eu não tenho mais energia nem disposição para esse tipo de coisa.

ouvindo: Your love alone is not enough, Manic Street Preachers.
lendo: Muito barulho por nada, Shakespeare.