Trouxe o mp3. Claro que não para ouvir durante a prova, né. Mas para ter algo para fazer enquanto a hora da prova não chega. E considerando que vou passar as próximas 5h lendo e escrevendo sobre algum tema social e bobo, encher minha cabeça com alguma narrativa de livro não pareceu sensato. E como o tédio foi maior do que pensei, aqui estou escrevendo num pedaço de papel higiênico ultra-maio de folha dupla e florzinhas em baixo relevo um post pro blog. (E isso de alguma forma me lembra o Henrique e seus posts perdidos em cadernos, que, segundo ele, eram os melhores de todos.)
Saí de casa no horário, porque resolvi que o café da manhã seria suficiente. Mas coloquei na bolsa maçã, biscoitinho e barra de cereal sabor banana que vem com umas passas que eu tenho que ficar catando. Coloquei caneta, duas borrachas, outra caneta e uma lapiseira com 3 pontas de reserva. Trouxe o gabarito do questionário socio-econômico de 223 perguntas. Mas, como não poderia deixar de ser, algo saiu errado: esqueci o documento de identificaçã, minha gloriosa identidade. Tive então que assinar uma declaração, carimbar com a digital e tudo. Vou passar a semana com o dedo azul, acho, porque já esfreguei horrores e não sai. Ótimo. E já tá começando a me dar sono. Maldita prova no domingo de tarde, ninguém merece perder o ócio de domingo assim. Ainda mais pra ser o centro das atenções da sala, com o nariz desse jeito.
(Escrito num pedaço de papel higiênico que achei dentro da bolsa hoje.)
ouvindo: Bebe água galinha, Babau do Pandeiro. (Hahaha, o cara é muito bom.)
lendo: Tender is the night, F. Scott Fitzgerald.
Bah bah bah
Estou gripada. Quer dizer, sei lá. Antes parecia uma virose qualquer, essa doencinha besta que me acerta em cheio pelo menos umas 6x por ano. Mas alguma bactéria resolveu aproveitar a festa e então eu tomo um antibiótico que me faz passar as 3h seguintes sem comer.
O que é um saco, entenda, porque comer e ganhar/comprar coisas é a única real alegria dos últimos dias. E eu estou sem dinheiro e pessoas doentes não saem pra tomar vento frio no meio da rua, sob pena de pararem de respirar ali no meio da passagem. Nem mesmo ir ali na locadora distante 10min a pé, buscar algum filme decente, já que o Miss Sunshine do camelô veio dublado e a vizinha levou Closer emprestado e o computador tem algum problema misterioso ao rodar videos que me impede de desfrutar da pirataria via torrent. E estudar com essa dor de cabeça que não dá trégua não rola mesmo.
E hoje é um domingo de sol, dia de passar a tarde vagabundando de várias maneiras, sendo a principal delas dormir molemente numa rede lá na área, mas tem Enem daqui a umas horinhas. Prova cansativa, gabarito enorme e passar a tarde fungando litros numa cadeira desconfortável. Deviam ao menos me deixar ficar ouvindo música lá na hora, assim um Mogwai de leve, só pra relaxar.
Mas ok, tudo ok.
A vida nunca é exatamente como a gente queria que fosse.
ouvindo: A hand to take hold of the scene, Okkervil River.
O que é um saco, entenda, porque comer e ganhar/comprar coisas é a única real alegria dos últimos dias. E eu estou sem dinheiro e pessoas doentes não saem pra tomar vento frio no meio da rua, sob pena de pararem de respirar ali no meio da passagem. Nem mesmo ir ali na locadora distante 10min a pé, buscar algum filme decente, já que o Miss Sunshine do camelô veio dublado e a vizinha levou Closer emprestado e o computador tem algum problema misterioso ao rodar videos que me impede de desfrutar da pirataria via torrent. E estudar com essa dor de cabeça que não dá trégua não rola mesmo.
E hoje é um domingo de sol, dia de passar a tarde vagabundando de várias maneiras, sendo a principal delas dormir molemente numa rede lá na área, mas tem Enem daqui a umas horinhas. Prova cansativa, gabarito enorme e passar a tarde fungando litros numa cadeira desconfortável. Deviam ao menos me deixar ficar ouvindo música lá na hora, assim um Mogwai de leve, só pra relaxar.
Mas ok, tudo ok.
A vida nunca é exatamente como a gente queria que fosse.
ouvindo: A hand to take hold of the scene, Okkervil River.
Do desconcerto
Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.
Não com pouca freqüência, escrevo para tentar ordenar os pensamentos, distinguir o que é real e o que não é, mas cada dia fica mais difícil separar realidade de imaginação. E existe realmente diferença?, me pergunto. Penso demais, durmo demais, sonho demais. E há dias em que os sonhos parecem menos estranhos do que a vida de acordado e a sensação é de que a qualquer momento o Stéphane vai entrar pela minha porta e colocar motores na minha girafa de pano. Hoje é um deles, e também um daqueles em que escolheria a doce falta de responsabilidade, a ausência de expectativas, o delírio de uma solidão imensa : minha concha construída com cuidado e paciência, alguma dor também.
Porque viver entre pessoas é complexo e sair correndo e se esconder embaixo da cama não é uma opção válida. Até minto que sou madura e resolvida, mas depois de tantos anos, ainda sou insegura e anacrônica; a mesma menina de projetos falidos, mochila pesada e tênis sujos, que volta para casa arrastando os pés no fim do dia, sem tato para lidar com as pessoas, fingindo e calando, se anulando para agradar alguns, inconscientemente alimentando a ilusão de outros.
Admito que muito me assusta merecer estima alheia, principalmente por não fazer por onde a obter, então eu poderia bem fingir que nada acontece, que a vida segue meio boba como sempre. A fuga sempre foi a minha saída mais fácil, lagarteando pelas paredes, ligeira e sutil, sem quase deixar rastros, para alguma fresta que me albergasse. Mas venho tentando evitar essa opção excessivamente pusilânime.
Andei pensando em várias coisas que eu poderia te falar, para apaziguar essa tua alma cansada de tanta ansiedade e tantas noite mal-dormidas, esses teus olhos que por vezes parecem pedir socorro a todos e a ninguém, porém nenhuma frase me saiu completa. Dizem por aí que eu sou boa com as palavras, mas não é bem assim. Elas sempre me faltam nos momentos mais melindrosos e o silêncio permanece enorme, enorme.
ouvindo: Worrywort, Radiohead.
Não com pouca freqüência, escrevo para tentar ordenar os pensamentos, distinguir o que é real e o que não é, mas cada dia fica mais difícil separar realidade de imaginação. E existe realmente diferença?, me pergunto. Penso demais, durmo demais, sonho demais. E há dias em que os sonhos parecem menos estranhos do que a vida de acordado e a sensação é de que a qualquer momento o Stéphane vai entrar pela minha porta e colocar motores na minha girafa de pano. Hoje é um deles, e também um daqueles em que escolheria a doce falta de responsabilidade, a ausência de expectativas, o delírio de uma solidão imensa : minha concha construída com cuidado e paciência, alguma dor também.
Porque viver entre pessoas é complexo e sair correndo e se esconder embaixo da cama não é uma opção válida. Até minto que sou madura e resolvida, mas depois de tantos anos, ainda sou insegura e anacrônica; a mesma menina de projetos falidos, mochila pesada e tênis sujos, que volta para casa arrastando os pés no fim do dia, sem tato para lidar com as pessoas, fingindo e calando, se anulando para agradar alguns, inconscientemente alimentando a ilusão de outros.
Admito que muito me assusta merecer estima alheia, principalmente por não fazer por onde a obter, então eu poderia bem fingir que nada acontece, que a vida segue meio boba como sempre. A fuga sempre foi a minha saída mais fácil, lagarteando pelas paredes, ligeira e sutil, sem quase deixar rastros, para alguma fresta que me albergasse. Mas venho tentando evitar essa opção excessivamente pusilânime.
Andei pensando em várias coisas que eu poderia te falar, para apaziguar essa tua alma cansada de tanta ansiedade e tantas noite mal-dormidas, esses teus olhos que por vezes parecem pedir socorro a todos e a ninguém, porém nenhuma frase me saiu completa. Dizem por aí que eu sou boa com as palavras, mas não é bem assim. Elas sempre me faltam nos momentos mais melindrosos e o silêncio permanece enorme, enorme.
ouvindo: Worrywort, Radiohead.
Das mágoas camufladas
Há dias em que eu acordo pensando em todos os momentos em que estivemos juntos e em como aqueles sorrisos pareciam sinceros. Sempre tive a impressão de que era estranha no ninho, de que era a mais fraca, a mais feia, a mais dispensável, a mais inconveniente de todos, mas sempre vinha um abraço e tudo parecia invenção da minha cabeça, por poucos instantes que fossem.
Passaram tempos e vieram coisas e imprevistos, até entendo, mas não completamente. E meu orgulho não me deixou correr atrás de alguma brecha de porta que alguém tivesse esquecido aberta - eu entraria e ficaria olhando de longe aquela bolha de euforia que antes me incluía também.
Ainda hoje me pego olhando pros lados e esperando que algum de vocês ligue, me procure, deixe recado me dizendo que só estavam pensando no meu bem quando deixaram de dar notícias, quando me esqueceram perdida num canto com meus infinitos livros e mp3, quando fizeram questão de me entregar ao meu abandono.
Me pergunto, em franca tortura, se vocês pensaram em mim quando andaram por aquelas ruas em que eu gostaria de estar; eu, que gostaria de estar em qualquer lugar que não aqui, que gostaria de ser livre e não consigo.
Mas é pra eu aprender.
Ninguém tem pena de quem não tem amor-próprio.
ouvindo: Spencer Perceval, iLIKETRAINS.
lendo: Tender is the night, F. Scott Fitzgerald.
Passaram tempos e vieram coisas e imprevistos, até entendo, mas não completamente. E meu orgulho não me deixou correr atrás de alguma brecha de porta que alguém tivesse esquecido aberta - eu entraria e ficaria olhando de longe aquela bolha de euforia que antes me incluía também.
Ainda hoje me pego olhando pros lados e esperando que algum de vocês ligue, me procure, deixe recado me dizendo que só estavam pensando no meu bem quando deixaram de dar notícias, quando me esqueceram perdida num canto com meus infinitos livros e mp3, quando fizeram questão de me entregar ao meu abandono.
Me pergunto, em franca tortura, se vocês pensaram em mim quando andaram por aquelas ruas em que eu gostaria de estar; eu, que gostaria de estar em qualquer lugar que não aqui, que gostaria de ser livre e não consigo.
Mas é pra eu aprender.
Ninguém tem pena de quem não tem amor-próprio.
ouvindo: Spencer Perceval, iLIKETRAINS.
lendo: Tender is the night, F. Scott Fitzgerald.
Arrumando o guarda-roupa novo
Sabe quando tem tanta coisa para fazer que não se sabe nem por onde começar?
Assim.
(E não ajuda quando você tem TTOC (tendência a transtorno obsessivo compulsivo) e fica se prendendo a detalhes e tendo que arranjar lugar pr'aquelas tralhas que você gosta de guardar.)
ouvindo: I've got you under my skin, Ella Fitzgerald.
Assim.
(E não ajuda quando você tem TTOC (tendência a transtorno obsessivo compulsivo) e fica se prendendo a detalhes e tendo que arranjar lugar pr'aquelas tralhas que você gosta de guardar.)
ouvindo: I've got you under my skin, Ella Fitzgerald.
ins.tan.te //
s. m. 1. Espaço de um segundo. 2. Espaço pequeníssimo de tempo. 3. Momento muito breve.
às vezes, qualquer tentativa de fazer sentido
acaba sendo a maior sandice que você já pôde algum dia pronunciar.
às vezes, quando aquelas manchas nas paredes
e os desenhos de giz e de cera e de poeira
tentam dizer alguma coisa que você já nem sabe que esqueceu
há tanto tempo atrás.
às vezes, no momento em que tudo o que você precisa é de um abraço
mas o mundo insiste em girar
descontrolado como aqueles pratos sobre varetas
que você via no circo quando criança.
às vezes, tudo o que existe de mais ridículo
é exatamente o que você mais precisa.
instantes pequeníssimos em que a vida desanda.
e você quer que ela desande.
e desmonte, e desaprume.
porque tudo o que você precisa é de um pouco de desordem.
- o norte é pra lá, sei bem.
mas eu quero mesmo é seguir o meu nariz.
espaço pequeníssimo de tempo,
os dados foram lançados, todos eles.
as meias-verdades estão aí.
- mas, por favor, não as coloque no cesto,
junto com tuas camisetas que ainda guardam meu cheiro de ontem à noite.
os muros verdes do outro lado da rua.
meu nome escrito neles, tinta vermelha invisível.
oportunidades existem, às vezes.
estão todas lá fora,
e já não tenho os sorrisos falsos que elas exigem.
respostas?
não, elas não existem.
mas perguntas não me incomodam.
- não sei dançar, você sabe..
mas se eu pisar nos seus dedos, é só fingir que não sentiu.
Lembrei desse texto ontem, quando cheguei tonta depois de tanto rodar no parque. Achei oportuno, deu saudade de vasculhar arquivos com coisas antigas (e ainda tão verdadeiras).
ouvindo: Falling Horses, Efterklang.
às vezes, qualquer tentativa de fazer sentido
acaba sendo a maior sandice que você já pôde algum dia pronunciar.
às vezes, quando aquelas manchas nas paredes
e os desenhos de giz e de cera e de poeira
tentam dizer alguma coisa que você já nem sabe que esqueceu
há tanto tempo atrás.
às vezes, no momento em que tudo o que você precisa é de um abraço
mas o mundo insiste em girar
descontrolado como aqueles pratos sobre varetas
que você via no circo quando criança.
às vezes, tudo o que existe de mais ridículo
é exatamente o que você mais precisa.
instantes pequeníssimos em que a vida desanda.
e você quer que ela desande.
e desmonte, e desaprume.
porque tudo o que você precisa é de um pouco de desordem.
- o norte é pra lá, sei bem.
mas eu quero mesmo é seguir o meu nariz.
espaço pequeníssimo de tempo,
os dados foram lançados, todos eles.
as meias-verdades estão aí.
- mas, por favor, não as coloque no cesto,
junto com tuas camisetas que ainda guardam meu cheiro de ontem à noite.
os muros verdes do outro lado da rua.
meu nome escrito neles, tinta vermelha invisível.
oportunidades existem, às vezes.
estão todas lá fora,
e já não tenho os sorrisos falsos que elas exigem.
respostas?
não, elas não existem.
mas perguntas não me incomodam.
- não sei dançar, você sabe..
mas se eu pisar nos seus dedos, é só fingir que não sentiu.
[23.03.2005]
Lembrei desse texto ontem, quando cheguei tonta depois de tanto rodar no parque. Achei oportuno, deu saudade de vasculhar arquivos com coisas antigas (e ainda tão verdadeiras).
- We never change, do we?
ouvindo: Falling Horses, Efterklang.
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