Conversas

As coisas têm gosto de longe, ela disse e fez uma cara que combinou bem com a frase : olhar meio perdido e aquele mexer de boca entreaberta de quem ia falar mais, e depois desistiu, juntando os lábios de novo. Odeio quando essas coisas acontecem, minha curiosidade estala feito sei lá o quê. E eu fiquei quebrando a minha cabeça para entender o que exatamente significava aquilo, de onde tinha surgido, qual era a reação esperada de mim. Beatriz sempre me colocava nessas situações constrangedoras em que eu me via obrigada a comentar algo muito profundo para parecer uma pessoa minimamente interessante - as palavras eram um dos únicos recursos que sobravam, já que as outras qualidades tinham nascido faltando. Os giros cerebrais funcionando a mil rotações por milissegundo, para fornecer uma resposta à altura, dessas que fariam os olhos dela - bonitos, tão bonitos - piscarem repetidamente, de alegria e espanto por se saber compreendida. Mas as tais respostas à altura nunca vinham assim fácil na hora necessária. Engraçado como minhas tentativas de não falar besteira eram piores do que as próprias besteiras, mas eu continuava tentando. E tinha outro jeito? Às vezes se sabe quando é melhor enfrentar o peso do silêncio, mas Beatriz emanava um cheiro bom, feito chuva de fim de tarde que vem refrescar o corpo cansado da gente, e que me fazia ter certeza que era preciso tentar um contato, de algum jeito, qualquer jeito, desesperado, bobo, o que fosse. Porque valeria a pena.

ouvindo: Ziegel Straße, Café do Vento.

Sobre provas e filmes

A prova de terça foi até bem boa, embora menos do que eu precisava [claro que nada é suficientemente bom quando você está perigando ir pra final]. Mas uma chama de esperança se acendeu e a desempolgação com a matéria diminuiu um pouco. Só que não tive coragem de estragar essa felicidade conferindo o gabarito da parte prática. Melhor a dúvida do que a certeza, em alguns casos.

Tá, eu sei que eu ando meio monotemática, só falando de universidade, mas é que minha vida meique tem se resumido a isso. Considerando que eu passo mais da metade do meu dia lá, não me sobra muita disposição pras outras coisas legais dando sopa por aí. É chegar em casa e cumprir o ritual banho-comida-travesseiro.

Mas, passadas as tempestades das provas, vem aquela calmaria de alguns dias (até que a próxima prova vá chegando e o desespero venha junto). Aproveitei para suprir minha sede cinéfila, vendo Paranoid Park ontem e Into the wild hoje. (E recomendo os dois.) Fazia tempo que eu não ia ao cinema sozinha, e dois dias assim seguidos foi bom. Eu não sou má companhia, sabe. Pelo menos não na minha opinião. E ir o cinema é algo de que gosto muito. Largar-se numa poltrona macia, ser absorvido por uma vida alheia por vários minutos, sentindo, quase não pensando, voltar para casa caminhando (viva os cinemas perto de casa!), ventinho frio, passos calmos, tão distraída que bate com a testa no poste, essas coisas. Uma sensação boa.

E é isso. A vida vai bem, com sol nascendo às 6h30 e dificultando ainda mais o processo de acordar cedo, conversas de MSN com os pais, tecido adiposo hipertrofiando e Elliot Smith tocando no repeat loucamente.

ouvindo: Mr. Goodmorning, Elliot Smith.
lendo: Eu, robô, Isaac Asimov.

Sobre gripes e anatomias

Esperando o filtro de papel preparar a segunda garrafa de café da noite. Ainda tenho um monte de coisas pra ler até a prova de terça, principalmente porque passei a tarde derrubada - culpa dessa gripe safada que se faz presente desde quinta e veio estragar meu feriado. E, como boa vagabunda que sou, no lugar de estudar loucamente, olhos fixos no atlas fotográfico com dissecções cuidadosas, estou papeando no MSN, linkando coisas no StumbleUpon e fazendo um daqueles testes Myer-Briggs de personalidade.

(...)

Acho que o café tá pronto.
E agora eu tou indo estudar de verdade. É sério.

ouvindo: Why?, Andrew Bird.

Are you a real person?

O RapidShare passou dos limites.
Como se já não bastasse a gente ter que esperar minuto e meio para poder digitar aquelas letras de confirmação antes do download, agora eles acrescentam um passo pra fazer suas sinapses trabalharem um pouco mais: as letras de confirmação tem um bichinho junto, e aí você tem que ser esperto e não-míope pra identificar (e desconsiderar) a letra com um cachorro no meio das letras com gatos.

Sério, não me peçam isso às 01h38, deitada e imobilizada pelo frio.

Repensando

Ninguém consegue ter certeza o tempo inteiro.

Chapéu de burro

Enlouquecendo com a quantidade de coisas pra ler.
Tem horas que dá um sooono que só eu sei.

E as notas vermelhas, alertando para a gravidade da situação.
E alguma hora eu vou precisar parar de colocar a culpa no processo de adaptar-se ao ritmo da faculdade e morar sem a família numa cidade nova e grande.

ouvindo: 7 baboker, Yael Naim.

Meio de semana

Nada como acordar às 4h30, tentar ler um pouco sobre o assunto do mural enquanto o cuscuz do café da manhã fica pronto, ser o último grupo a apresentar o tal mural que só deu gasto de tempo, dinheiro e paciência - e provavelmente não vale ponto algum, ler na sombra do gramado do campus depois do almoço, passar a tarde no projeto convencendo pessoas a serem possíveis doadores voluntários de medula óssea, chegar em casa, comer miojo, fazer um bolo de cenoura (que acabou ficando com pouco açúcar), dormir antes das 20h, acordar às 1h30, e estudar Bioquímica loucamente, tomando café bem forte até o sol nascer bonito na janela completamente escondido no céu nublado e você perceber que é hora de sair correndo pra outro dia muito comprido.

Curiosidade

Senhor comentador God of War,

acho bonitinho de sua parte sempre deixar comentários, diferentemente da maioria das outras cerca de dez pessoas que passam por aqui todo dia (isso não foi uma crítica indireta a vocês, só uma constatação); mas fico completamente sem graça de não saber quem é você, se também bloga, se eu já conheço de algum lugar mas não reconheço o nick, se é alguém de Natal, etc.

Anônimos ocasionais eu até relevo, mas recorrentes assim me deixam curiosíssimas e agoniadas de não poder responder: uma conversa de vai-volta, mas sem o vai de novo. Na falta de Orkut/blog/fotolog, um e-mail já serve.

Beijomeresponde.

Pro que der e vier

Cenário: Depois da nota mais baixa da vida, uma aula prática de Anatomia em que não se consegue enxergar nada.

- Ah, sério. Vou desistir da medicina e virar caixa de supermercado!
- E eu? Posso ser o empacotador do seu caixa?

Da falta de concentração

Estudar no laptop, com aqueles super-práticos e-books em inglês [que a princípio pareciam a solução para todos os meus problemas], sendo que a wireless funciona a todo vapor, é uma cilada.

Tipo assim:
1) 5min de leitura e você encontra alguma palavra que nunca viu na vida.
2) Pausa para pesquisar num dicionário online/Wikipédia o que raios shingle/leverage/slump, ou outra palavra inédita qualquer significa.
3) Ler todas os usos da palavra, sair pulando de link em link, por vários minutos.
4) Perceber, ao chegar num artigo aleatório sobre física ou cultura pop, que é hora de voltar pro texto de Anato.
5) Ah, antes vou só ver se alguém do grupo de BioCel mandou e-mail.
6) Olha, uma mensagem nova na lista do DANC. Que legal, filme de graça amanhã.
7) Falando em filme, mas o que será que vai passar no Cine Luz essa semana?
8) Aproveitando que eu interrompi a leitura mesmo, vou ali no banheiro.
9) Na volta, ante a visão da geladeira: Ah, vou beber água.
10) Volta pro quarto, senta na cama e pega o laptop de novo.

Repetir o processo várias vezes, até que fique bem tarde e você lembre que precisa acordar cedo ou que o sono impeça o funcionamento do raciocínio, o que vier primeiro.

Afasia

As palavras estão aqui, estão sim, represadas em algum recanto do córtex cerebral, entulhando-se, aglutinando-se, formando uns aglomerados impossíveis de decompor. Palavras sobre coisas, sobre pessoas, sobre sentimentos, sobre estranheza, sobre o tempo nunca suficiente, sobre inaptidões sociais, sobre felicidade, sobre escrever frases alheias no dorso da mão, porque na verdade elas são suas, são você em caracteres.

E tenho medo. De que um dia saiam de vez, venham numa torrente descontrolada que não pare por muitos e muitos dias, enchendo páginas e distraindo completamente de todo o resto.

Ou de que não saiam nunca.

ouvindo: Wild Bill Jones, Samamidon.
lendo: Admirável mundo novo, Aldous Huxley.