Registro de sonhos

Aquele em que o céu tinha estrelas demais e as constelações eram em 3D, o que me causava vertigens absurdas; aquele em que o Gaspard Ulliel vinha aqui e levava embora o meu videocassete pra consertar; aquele em que eu morria com uma dor no peito e meu corpo ficava flutuando num mar de água viscosa; aquele em que eu era um personagem de desenho e ia virando um robô que parecia umas caixas de som, primeiro as pernas, depois os braços, a cabeça no fim; aquele em que eu pegava o mesmo ônibus de um Andrew Bird com barba e bigode, mas tinha vergonha de ir cumprimentar; aquele do poema mais bonito que eu já escrevi na vida e não consegui lembrar quando acordei; aquele 1º sonho lúcido, sentada numa cerca de beira de estrada de barro de interior; aquele em que o Lucas vinha me deixar em casa e a gente se despedia com um abraço pela janela do carro; aquele em que eu fugia correndo de alguém muito perigoso e corria e sentia doerem as pernas e quando já não conseguia mais respirar, pulmão doendo e cabeça tonta, me escondia numa vala no chão, e desmaiava; aquele em que eu ia pra BH num trem com vagão-restaurante e o Henrique ia me esperar na estação; aquele de correr correr num campo aberto e verdinho e conseguir voar e foi uma das melhores sensações da minha vida, considerando o tempo dormindo e o tempo acordado; aquele de quando eu perdia a prova do vestibular e acordei achando que era verdade, mas ainda era outubro; aquele em que a Chan Marshall vinha tocar no auditório da escola de música da UFRN; aquele da festa num apartamento quase sem móveis onde todo mundo estava sem roupa, mas completamente à vontade, sentado, fumando e vendo um filme estranho; aquele de encontrar fósseis numa caverna de onde eu não sabia voltar; aquele de reencontrar uma paixonite pré-adolescente frustrada; aquele de estar bêbada e beijando um desconhecido num show de róque; aquele outro sonho lúcido em que eu tentava transformar as pessoas em outras, mas não conseguia; aquele cheios de filhotes de gato.

- Só tentando não esquecer. Gosto de sonhos, mas tenho memória ruim.

ouvindo: In the mausoleum, Beirut.
lendo: Uma seleção de contos do Mário de Andrade.

Das bodas de carvalho de um casal de amigos dos meus pais

Segunda-feira à noite.
Eu, minha saia lilás, minha blusa preta de alcinhas usada com um daqueles sutiãs de silicone que grudam, sabe? Sandália com um salto fininho, brinco com diamantes pedrinhas de strass, rímel, lápis, sombra cor-de-rosa, minha bocona com batom, yadda yadda ya.

E eu poderia ficar em casa, usando shorts, uma camiseta confortável e meu aparelho de contenção, fazendo muito mais proveito da minha vida, estudando coisas úteis(?) como a teoria protônica de Brönsted-Lowry ou lendo tirinhas antigas do Liniers. Eu poderia tentar descobrir se o Correio ainda tá aberto a uma hora dessa e mandar os presentes que já deveria ter mandado ou ver um dos filme do computador, poderia ir à padaria de bicicleta e comprar aquele pão de leite ou deitar de novo e dormir mais, apesar de ter acordado agora há pouco.

Mas não.
Vou ficar sentada vendo alguma programação enfadonha, renovação de votos e filhos comovidos, enquanto enfio sorrateiramente a maior empada da mesa na boca de um movimento só. Reunida por conveniência numa mesa com pessoas com quem não tenho nenhum assunto relevante, que estarão falando sobre coisas que não me interessam em absoluto, certamente vou ficar sendo terrível durante horas, pensando nos defeitos e falta de senso de ridículo ao se arrumar de quem passar por perto ou até mesmo pensando em textos incríveis que serão esquecidos assim que eu tiver um computador em mãos.

Por que meus pais têm que conhecer tanta gente?
Ou que conheçam, vá lá; mas por que insistir em me levar junto nesse tipo de coisa?
Por que não posso levar um livro?
Por que nunca há ninguém simpático que goste de Amélie Poulain nesses lugares?
Pior, por que não consigo dizer taxativamente olheunãovounumvoumesmonumvonenhapau?

Nem botei o pé fora de casa e já ouço o glorioso som do tédio.

ouvindo: Where birds don't fly, Club 8.
lendo: Para gostar de ler, volume 13 - Histórias divertidas.

Caindo e levantando

As coisas nunca estão tão ruins que não possam piorar, essa é a regra geral do pessimismo. Por piores que as coisas estejam, você sempre pode ainda quebrar um pé, arranjar uma cicatriz no meio da testa ou deixar de ver Nouvelle Vague e Hello Saferide tocarem bem ali em Recife. Mas tudo bem, tudo bem. A vida é um joguinho mesmo; e a gente não pode ganhar sempre, isso seria praticamente contra-probabilístico.

E o legal é que no meio do caos as coisas vão se arranjando. Depois da queda maior, de passar dias sem saber que rumo tomar, da sensação de fracasso. Da vontade de gritar que nunca vinha a termo, das lágrimas entaladas que só desciam quando algum filme ou música emulavam com mais força o que eu deveria sentir. Daquelas horas em que fugir do mundo era quase objetivo de vida.

E de repente eu sinto que algumas tragédias vem pra tirar a gente da acomodação. Agora tenho um cachecol da sorte, verde cor-de-esperança tomando sol ali fora; tenho uma empolgação que nem cabe em mim, me faz ter vontade de dançar no meio dos carros velozes das ruas. Porque apesar de todas as incertezas, o lance é arriscar, correr atrás de vontades antigas que pareciam já esquecidas no meio das coisas simples de todo dia. Vou ler filosofia e manter o ânimo, até que chegue novembro e suas flores e seus abraços guardados há séculos em baús bem fechados.

Façam pensamento positivo por mim.

ouvindo: Humble peasants, The Most Serene Republic.
lendo: Até o dia em que o cão morreu, Daniel Galera.

Da revolta imbecil

Hoje eu acordei com raiva do mundo e da minha falta de voz. Aí deu vontade de sumir um pouco, apagar blog, orkut, parar de usar o telefone e o escambau de uma vez só. Como se isso fosse, de alguma forma, melhorar alguma coisa, eh.

Engraçado que no ano passado aconteceu isso e foi mais ou menos nessa mesma época do ano.
Ai, ai. Eu sou tão previsível.

ouvindo: Pra ser sincero, Marisa Monte.

11 de setembro

E não que eu seja oh!meudeus extremamente insensível nem nada, mas não vejo isso com a importância que outras pessoas parecem ver. Veja bem, alguns desastres muito maiores já aconteceram e/ou continuam todo dia, porém fora daquele país lá, e ninguém faz questão de marcar no calendário ou comentar no jornal.

Além disso, os meus últimos dias andam tão exorbitantes* que eu nem me dei ao trabalho de lembrar disso antes que alguém comentasse. Tenho livros novos pra ler, muitas decisões a tomar e as minhas próprias tragédias pessoais, essas sim merecem muito mais da minha angústia.

* Exorbitar.
v.i. Sair de sua órbita. /
Fig. Ultrapassar os limites do justo ou razoável; exceder-se.


ouvindo: The trees were mistaken, Andrew Bird.
lendo: Tender is the night, F. Scott Fitzgerald.

A solução para os seus problemas

"Tem duas coisas que resolvem tudo no mundo: surra e dinheiro.
Se não resolver, é porque foi pouco."

ouvindo: Now or never, Josh Groban.

Do feriado à tarde

good-bye.

Sabe quando você quer falar um monte de coisas, mas é tanto a dizer que as frases dos assuntos se misturam com as imagens coloridas e as sensações recentes e as decisões que precisam ser tomadas em rápido e tudo vira uma enorme confusão, seus neurônios quase faiscando?

Aí eu paro, respiro fundo e armo na varanda a rede cor-de-rosa onde fico deitada, balançando, escutando o barulhinho da chuva e lendo sobre a Alice só deixar para trás as pessoas que não ama mais, tão diferente do que eu costumo fazer.

ouvindo: Dearly Departed, Devotchka.
lendo: Closer, Patrick Marber.

Da nova dieta

Não que eu esteja querendo emagrecer 10kg em uma semana e vá passar três dias seguidos só bebendo água e comendo biscoito cr-cr ou que tenha decidido mudar completamente meus hábitos alimentares da noite pro dia. Longe disso. É só que andei pensando nas coisas que como, nas coisas de que tenho medo e em todas aquelas aulas de química e biologia e nos filmes mostrados pelo professor de geografia.

Como muita coisa que nem queria tanto só por preguiça de ir procurar uma outra ou pra não ser a única diferente num grupo. Como quando chego em casa e no almoço a salada é apenas aquele broxante combo alface-tomate-cebola e eu não vou preparar nada mais cheios de verdurinhas felizes porque já tou atrasada pra sair de casa novamente. Ou sabe quando você está entalado numa festa de aniversário e passa o garçom com um copo de refrigerante? Sempre penso em todas as coisas corrosivas de estômago ali naquele líquido, nos corantes e no açúcar refinado, na minha propensão a gastrite também, mas vendo todo mundo ali ao meu lado tomando sem medo, acabo entregando os pontos. Por que água de coco é mais caro do que coca-cola? Por que festas quase nunca servem suco de acerola? Acho um absurdo.

Sem falar que ando meio ansiosa com essa história de vestibular-rewind-forever, então não é difícil passar o dia inteiro levantando pra comer qualquer besteira na geladeira só pra me distrair dos livros. Isso é ruim porque além de não estudar eu fico comendo sem nem ao menos estar com fome, é só pra passar o tempo mesmo. Aí as comidas acabam perdendo metade da graça que têm.

Até aí dá pra ir levando numa boa, mas olha, quando as suas roupas começam a mandar mensagens de você-ganhou-peso-hein, é uma coisa. Quando as outras pessoas vêm pessoalmente dizer isso pra você, é outra. Muito constrangedora até, por sinal. E pensar que há alguns anos eu era praticamente desnutrida, umas perninhas de vareta de dar dó.

Então, eu só queria ser uma pessoa mais saudável e feliz comigo mesma. E meus planos são:

1) Beber diariamente pelo menos 2L de água.
Dizem que é bom pro cabelo, pra pele, pra tudo. Mas esse é o mais chato, principalmente durante o período de aulas, porque a pessoa fica indo ao banheiro toda hora.

2) Comer mais fibras e mais frutas.
Não é nem que eu não goste ou não tenha hábito, é só que entre lavar, descascar e comer uma fruta, já devorei duas bolas de sorvete de chocolate. O que não é muito bacana a-nível-de efeito acumulativo ao longo de semanas.

3) Mastigar mais, comer mais devagar.
Só engolir as coisas piora a digestão e faz a pessoa comer mais, porque a sensação de saciedade demora a chegar, dizem.

4) Diminuir carne/frango/embutidos.
Não morro de amores por carne nem por frango, pra falar a verdade. (À exceção de alguns pratos como filé ao molho madeira, nham.) E quando penso naqueles bichos criados à base de hormônios e antibióticos o tempo inteiro, faço menos questão ainda. Peixes são mais saudáveis, mais gostosos também.

5) Tomar notas sobre a alimentação.
Desde o dia 1set, tou anotando num caderninho tudo o que como durante o dia, que é pra daqui a algum tempo fazer uma avaliação do que é que ando comendo de menos ou demais.

A proposta é levar isso por um mês inteiro. Depois eu venho dizer se mudou alguma coisa e minha vida ficou muito melhor ou se continua tudo na mesma, se a preguiça me fez desistir ou se isso aqui não era apenas uma grande mentira escrita apenas pra diminuir meu peso na consciência depois de passar uma semana comendo salgados mega-calóricos e Fandangos e brigadeiro na hora do intervalo.

ouvindo: Land's End, Patrick Wolf.