Uma amiga, que é hipocondríaca assumida, minha tinha essa ideia de um hotel-hospital: um lugar meio spa, onde você se hospedaria durante alguns dias e teria à sua disposição uma equipe completa de saúde, nutricionista pra te fazer comer direito, educador físico pra te incentivar a perder aquela barriga que não fecha na calça, psicólogos e psiquiatras pra saber se aquilo realmente é coisa da sua cabeça, médicos de todas as especialidades, requisitando todos os exames que você possivelmente poderia precisar, todas os seus hormônios mensurados, suas ondas cardíacas checadas, sua capacidade pulmonar conferida, o bom e velho raio-x mostrando sinais escondidos nos seus ossos, quem sabe uma tomografia e até um cateterismo esperto pra ver se suas artérias não estão nem perto de entupir. Tudo, tudo concentrado num lugar só, que tivesse um jardim bonito e uma cachoeira ali por perto, pra dar aquela limpada nas energias.
Talvez isso até exista em algum lugar. Eu acho até que, se não fosse a falta de dinheiro ou toda a questão de princípios envolvida, até eu ia querer montar um empreendimento desses, que não condiz com as coisas que eu aprendo sobre boa gestão dos recursos e otimização de procedimentos de saúde, mas eu entendo, sabe?
Porque nesses dias de dores estranhas, que vem e voltam, de ansiedades, de inseguranças, de hesitações, de não saber por onde começar, minha carência de atenção, de ter alguém que escute, examine, me revire do avesso e diga com segurança que tá tudo bem e que vai passar, ou que não, que tudo isso é resultado de uma condição rara, de um desequilíbrio dos humores do corpo, dos eletrólitos do sangue, de uma alimentação com poucos minerais, nesses dias a vontade de um hotel-spa-hospital tá gigante.
ouvindo: The maid needs a maid, Emily Haines.
lendo: Deus: um delírio, Richard Dawkins.
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Triptano*, me abraça
Já me perguntaram várias vezes de onde surgiu esse nick, Migraine. Foi numa época longínqua em que eu tinha dores de cabeça demais, descobri que era enxaqueca (ou, como preferia o neurologista, migrâneas) e precisava de um login novo pro msn. Na falta de coisa melhor, ficou. E, à medida que os anos foram passando e eu nunca tive um apelido de verdade, além de diminutivo do meu nome super comum, foi ficando e as pessoas se acostumaram com ele. Já pensei em mudar várias vezes, mas nunca me apareceu nada melhor e/ou que já não fosse usado por alguém.
Minha mãe não gosta, porque diz que atrai energias negativas. Às vezes, naqueles momentos em que você quer transferir pra alguém/algo a culpa da sua desgraça, eu fico pensando se ela não estava certa, se toda essa nuvem negra na cabeça não é isso.
Mas tudo bem. Enquanto existirem triptanos, óculos escuros, remédios contra enjôo que te fazem dormir durante horas se preciso e pessoas que ignoram sua chatice evidente e vem cuidar de você, tá tudo bem.
ouvindo: Nugget, Cake.
* evitando sua pesquisa no Google, o serviço pas du tout de informações gentilmente responde: triptano é uma classe de fármacos contra enxaqueca e salvação de muita gente.
Minha mãe não gosta, porque diz que atrai energias negativas. Às vezes, naqueles momentos em que você quer transferir pra alguém/algo a culpa da sua desgraça, eu fico pensando se ela não estava certa, se toda essa nuvem negra na cabeça não é isso.
Mas tudo bem. Enquanto existirem triptanos, óculos escuros, remédios contra enjôo que te fazem dormir durante horas se preciso e pessoas que ignoram sua chatice evidente e vem cuidar de você, tá tudo bem.
ouvindo: Nugget, Cake.
* evitando sua pesquisa no Google, o serviço pas du tout de informações gentilmente responde: triptano é uma classe de fármacos contra enxaqueca e salvação de muita gente.
Ai ai
Amanhã eu tenho prova e de repente tou de cama. Que maravilha ficar doente.
(Sem falar que ninguém da sala responde minhas mensagens. Adoro ser ignorada.)
(Sem falar que ninguém da sala responde minhas mensagens. Adoro ser ignorada.)
sei que não tenho aparecido muito
, mas é que os sentimentos estão assim numa senóide descontrolada e tem dias em que eu estou muito bem, e dias, como hoje, em que eu estou apenas ok, e respiro fundo e penso, é, lá vamos nós de novo, seguindo em frente, porque é muita pretensão achar que eu mereço sofrer menos do que qualquer um por aí, e nem é também como se houvesse um motivo qualquer, é só uma conjunção de pequenos fatores, que você deixou se avolumarem e tomarem proporções astronômicas, bem aqui dentro da sua cabeça, porque externamente isso não é nada. cada um tem seu universo de problemas, e por que os meus seriam tão mais noticiáveis? não são. minha mãe pergunta como estou, e eu digo que tou indo, que vou tentar ficar bem. tentar não, é pra ficar, ela diz, e não é como se fosse assim tão simples. e sim, sinto saudades, mas não é como se eu achasse que pertenço exatamente a algum lugar, ou que estar em algum lugar é que vai mudar esse fardo de ser quem se é. never let them see how lost you really are, dizia o poema, mas eu não sei se esconder isso vale o esforço. e canalizo as forças pra outras coisas, ah como quero ser forte, preciso ser, e olho pela janela, esse quadro que eu tanto gosto e que é a parte preferida da casa de todo mundo que vem aqui (engraçado, a parte preferida ser o mundo lá fora, uma paisagem numa janela de vidro), sentar na escrivaninha e abrir a janela, ficar sentindo o vento frio que arrepia e abraça numa noite fria, mas sem chuva, os carros pequenos indo e vindo lá embaixo. e teve aquele dia em que o coração de repente palpitou ligeiro e eu saí de banda, pisando duro e fingindo qualquer coisa; e aquela da lágrima escorrendo pequena junto com a lóri e seus terremotos interiores, que também existem aqui; e eu só queria que esse sentimento fosse embora, por que a gente se desgasta por coisas que não valem a pena?, acho que é meio masoquismo, vai saber, mas é difícil se desfazer dessa bagagem de frustrações e decepções que a gente foi colecionando sem querer. e aí isso faz a cabeça doer, e o estômago queimando, o intestino que não funciona, e a moleza que se espalha pelo corpo inteiro, e a vertigem ao meio-dia. vontade de tomar aqueles comprimidos pra enjôo que sobraram da viagem (dois dias inteiros num ônibus olhando paisagens e cantando sozinha), os comprimidos que trazem sono como efeito colateral, dormir pra fugir do mundo, mas dormir é se entregar e, ah, eu tenho tanto pra fazer, tanto, tanto, tanto, tanto.
*sigh*
ouvindo: Sleeping torpor, Anathallo.
lendo: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector.
*sigh*
ouvindo: Sleeping torpor, Anathallo.
lendo: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector.
Casa de ferreiro, espeto de pau
Sou estudante de Medicina, mas quando a questão é cuidar da minha própria saúde as coisas nunca vão muito bem. Certo que eu não sou a mais enlouquecida da vida, eu como frutas todo dia, até gosto de salada. Fora o trajeto da faculdade, sempre ando a pé e só bebo raramente, quando saio com a galera. (Caipirinha de kiwi, te quiero.)
No entanto, há muito que eu deveria mudar. Do tipo voltar a fazer exercícios regularmente ao invés de ficar em casa me enrolando infinitamente e tendo preguiça e comendo por tédio, tomar direitinho as vitaminas e aderir aos tratamentos com regularidade, não racionar a água de beber e ir ao médico pra fazer a consulta de rotina que mamãe pediu desde julho(!) e fazer uns exames e ver se tá tudo legal. (Na verdade, eu sei que não tá.) Preciso ir numa nutricionista (ô, alguém aí já conheceu nutricionista homem? Porque eu não.) pra me ajudar a acertar minha alimentação; na verdade, preciso de uma equipe multiprofissional inteira me vigiando 24/7 e que me ajude a tomar jeito na vida - perder esses kgs que sobram no cálculo do IMC, controlar essa ansiedade, me livrar desses sintomas de depressão.
Ou talvez eu só precise fazer terapia pra deixar de ser viadinha. Como é que eu quero cuidar das pessoas um dia se nem de mim eu dou conta?
ouvindo: Bruised, The Bens.
lendo: Pantaleón e as visitadoras, Mario Vargas Llosa.
No entanto, há muito que eu deveria mudar. Do tipo voltar a fazer exercícios regularmente ao invés de ficar em casa me enrolando infinitamente e tendo preguiça e comendo por tédio, tomar direitinho as vitaminas e aderir aos tratamentos com regularidade, não racionar a água de beber e ir ao médico pra fazer a consulta de rotina que mamãe pediu desde julho(!) e fazer uns exames e ver se tá tudo legal. (Na verdade, eu sei que não tá.) Preciso ir numa nutricionista (ô, alguém aí já conheceu nutricionista homem? Porque eu não.) pra me ajudar a acertar minha alimentação; na verdade, preciso de uma equipe multiprofissional inteira me vigiando 24/7 e que me ajude a tomar jeito na vida - perder esses kgs que sobram no cálculo do IMC, controlar essa ansiedade, me livrar desses sintomas de depressão.
Ou talvez eu só precise fazer terapia pra deixar de ser viadinha. Como é que eu quero cuidar das pessoas um dia se nem de mim eu dou conta?
ouvindo: Bruised, The Bens.
lendo: Pantaleón e as visitadoras, Mario Vargas Llosa.
Justificando o nickname
Ando tendo dores de cabeça. To-dos os di-as. Sem saber por que motivo. Antes era ansiedade do resultado, e agora, é o quê? Ansiedade pela mudança? Pela cidade nova? Pelo início das aulas? Pela minha vida inteira pelos próximos anos?
(Eu andava até bem no controle desse meu nervosismo exacerbado (aka pré-psicose), mas pelo visto a trégua acabou.)
E nem é como se fossem crises de enxaqueca, dessas que te fazem ver coisas e agonizar numa maca de pronto-socorro por mais uma dose do medicamento na veia; são só aquele latejar abusado que não te impede propriamente de fazer nada, mas tira o ânimo pra qualquer coisa (inclusive e principalmente usar o computador, ver filmes e ler, que por acaso são meus objetivos pras férias).
Pra passarem, me alimento (apesar da náusea), tomo banho, tomo remédio, tento dormir. Às vezes funciona; às vezes, não mesmo. Aí tomo mais remédio. E muito remédio me dá dor de estômago. Dores de estômago me fazem perder a fome. Ficar com fome aumenta as dores de cabeça.
[infinite loop]
Acho que preciso ir ao médico de novo.
ouvindo: Careless love, Madeleine Peyroux.
(Eu andava até bem no controle desse meu nervosismo exacerbado (aka pré-psicose), mas pelo visto a trégua acabou.)
E nem é como se fossem crises de enxaqueca, dessas que te fazem ver coisas e agonizar numa maca de pronto-socorro por mais uma dose do medicamento na veia; são só aquele latejar abusado que não te impede propriamente de fazer nada, mas tira o ânimo pra qualquer coisa (inclusive e principalmente usar o computador, ver filmes e ler, que por acaso são meus objetivos pras férias).
Pra passarem, me alimento (apesar da náusea), tomo banho, tomo remédio, tento dormir. Às vezes funciona; às vezes, não mesmo. Aí tomo mais remédio. E muito remédio me dá dor de estômago. Dores de estômago me fazem perder a fome. Ficar com fome aumenta as dores de cabeça.
[infinite loop]
Acho que preciso ir ao médico de novo.
ouvindo: Careless love, Madeleine Peyroux.
Do desânimo
Passei a tarde inteira dormindo. Agora já são quase 3h e eu preciso dormir porque fico em pé até 20h com intervalo só pro almoço, mas não consigo. Cansei da termologia e das notícias sobre G8, etanol e bases antimísseis no Leste Europeu. Meu computador desliga quando quer, só liga quando quer, e meu ventilador caiu no chão e quebrou o pescoço. Estou ouvindo música há tanto tempo que os fones fazem minhas orelhas doerem e eles também apertam as pernas dos óculos, que apertam um ossinho e isso vai provocando uma dor de cabeça suave para acompanhar a falta de sono.
Eu gostaria de ser uma pessoa forte. E corajosa. Me sinto mal com as expectativas e as cobranças indiretas, como se já não bastassem as minhas próprias críticas. Dia desses não aguentei e saí no meio da aula para vomitar. Disse que alguma coisa me tinha feito mal, quando na verdade era puro nervosismo. É difícil não conseguir ser a pessoa que você pensava poder ser.
Às vezes tento me consolar pensando na aprendizagem, mas nem sempre tenho certeza de que eu esteja virando uma pessoa melhor. E o que realmente significa ser uma pessoa melhor, no fim das contas?
Acho que não pertenço a lugar ou coisa alguma.
ouvindo: Blue suede shoes, Chris Garneau.
Eu gostaria de ser uma pessoa forte. E corajosa. Me sinto mal com as expectativas e as cobranças indiretas, como se já não bastassem as minhas próprias críticas. Dia desses não aguentei e saí no meio da aula para vomitar. Disse que alguma coisa me tinha feito mal, quando na verdade era puro nervosismo. É difícil não conseguir ser a pessoa que você pensava poder ser.
Às vezes tento me consolar pensando na aprendizagem, mas nem sempre tenho certeza de que eu esteja virando uma pessoa melhor. E o que realmente significa ser uma pessoa melhor, no fim das contas?
Acho que não pertenço a lugar ou coisa alguma.
ouvindo: Blue suede shoes, Chris Garneau.
Do feriado inútil
Mas é só que eu queria entender que atmosfera é essa, inerente a domingos e feriados prolongados, que faz com que eu perca meus dias livres em casa tendo enxaquecas e morrendo de calor.
ouvindo: So sorry, Feist.
ouvindo: So sorry, Feist.
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