Nem sempre é melhor sob pressão

Eu vivo uma relação de amor e ódio com a Medicina. (Assim como para a maioria de todas as coisas do mundo, mas enfim..) Gosto dos assuntos, me interesso de ler a respeito, fico empolgadíssima nas aulas de Propedêutica (onde a gente aprende a consultar o paciente e interpretar os sinais e sintomas), acho massa os mecanismos do corpo e tal. Quero dizer, foi com razão que eu penei um bocado pra entrar no curso.


it's been a hard day's night

Mas quando eu tenho que estudar por obrigação pra uma prova que vai cobrar 33x mais coisas do que a professora ousou falar na sala, e a minha madrugada de estudos intensos foi frustrada pelo despertador que não tocou (ou que eu desliguei sem perceber), e a ânsia pelo show do Radiohead me faz perder a concentração, eu só tenho vontade de seguir os conselhos do Grizzly Bear:
Would you always,
maybe sometimes,
make it easy?
E então depois de uma caneca de Crunch com leite gelado, ligar o som num volume baixinho, me jogar embaixo do lençol e dormir até a garoa passar.

ouvindo: Two weeks, Grizzly Bear.
lendo: resumos de imunologia, na esperança de não zerar a prova.

Cinefilia

Esses dias que meus pais estavam aqui e nós fomos ao cinema algumas vezes, fiquei pensando em como as pessoas tratam de maneira diferente o ato de assistir a um filme qualquer.

Eu, particularmente, saio de casa pensando no filme. Já vou ao shopping teleguiada ao andar do cinema, quase um ato reflexo. O que me move é a estréia de alguma nova película de diretor que eu goste, o último trabalho de atores preferidos, uma recomendação de amigos em que eu confie no gosto. Ou então aquele filme fora do circuito com nome bonito que passa no cinema antigo, sem ar-condicionado nem fileiras stadium. Caso não encontre companhia, seja pelo tipo do filme ou por incompatibilidade de horário, vou sozinha e geralmente durante a semana, que é mais vazio e mais barato. Nunca compro algo de comer, no máximo um chocolate. Chegar depois do início do filme é heresia e me faz ficar irritada querendo saber exatamente o que aconteceu nos primeiros 2min, pois pode ter sido algo que me ajude a entender qualquer coisa mais lá da frente.

Já com meus pais, era chegar no cinema em pleno domingo de noite, depois de umas voltas pelo shopping com compras opcionais e só depois decidir o que assistir. Não sem um certo momento de conflito, porque as preferências de gênero eram divergentes. Ou ir pensando numa coisa, mas chegar em cima da hora e entrar atrasado na sala. Comer um saco grande de pipoca, sujando as mãos de manteiga. E ficar constrangida nas cenas em que aparece a bunda do Antonio Banderas.

ouvindo: 15 steps, Radiohead.

.. or I'll explode

Quando, depois de perder metade do guarda-roupa, as primeiras estrias começam a aparecer, você percebe que realmente é hora de parar de se enganar.

Da cegueira transitória

Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

- Caio Fernando Abreu.

ouvindo: Dead trees, Lakes of Russia.

Do tempo

Doutores, é provável que haja alguma relação entre o fato de estarmos tão entretidos e a sensação generalizada de que o tempo está passando mais depressa. Numa sociedade de olhinhos brilhantes e ansiosos voltados para o entretenimento, com a retaguarda à disposição para a dedada universal, o cenário mais natural é a abolição do tempo. Precisamos ficar entediados para que o tempo passe no ritmo em que costumamos experenciá-lo. Como no colégio. Lembro de tudo o que aconteceu no primeiro, no segundo e no terceiro ano - os personagens que foram integrados, as intrigas, as tardes infinitamente bolorentas. Já na faculdade, quando o nível de entretenimento cresce, os eventos começam a se confundir. Hoje, com seriados e ipods, já sequer vale a pena comprar agendas datadas. Em Fortaleza, sentado na sala, não consigo sentir na pele que estive um ano em Belo Horizonte. Da sensação de que passou depressa para a sensação de sequer ter passado é um salto. Uma sociedade inteira de pessoas com a fugidia sensação de que algo aconteceu. Não custa muito e logo o tédio será artigo de luxo. Quem puder pagar para ficar entediado, pagará. Quem não puder, terá de passar o dia às gargalhadas, ou se comovendo, ou se excitando. O problema é o único problema: a morte, a quem pagamos a conta de tanta diversão.

(retirado daqui: dessincronizado.)

ouvindo: Flight Pattern, Lakes of Russia.

Desculpas esfarrapadas

Sabe aquela história de "próximo semestre eu estudo"? Tá sendo o contrário comigo. Não peguei num livro ainda, nem caderno tou levando e já assassinei umas poucas de umas aulas. Sendo que agora que o Carnaval [aquele feriado em que eu só dormi, folheei revistas de decoração, comi bastante e cultivei uma colônia de bactérias nas tonsilas] já passou, qual a desculpa que eu tenho pra não estudar?

Bem.. Minha família tá vindo passar umas férias na cidade e eu preciso ser uma boa anfitriã, hein.

ouvindo: Losing touch, The Killers.